Conheça Ivana Paixão, anunciada entre as 15 finalistas, sendo a única do interior da Bahia; Ivana concorreu com 180 inscritas de várias regiões do país.
No próximo dia 15, o bloco afro tradicional Ilê Aiyê escolherá a Deusa do Ébano 2025, em celebração na sua sede, a Senzala do Barro Preto, no Curuzu, em Salvador. Entre as 15 finalistas, está um diamante da Chapada Diamantina, a “deusa de nascença” Ivana Paixão.
Natural de Lençóis, Ivana concorreu com 180 mulheres de todo o Brasil, sendo a única candidata do interior da Bahia. Ela deseja trazer para a cidade chapadeira o manto que coroa a Rainha do Ilê neste ano tão especial, logo após o bloco, que é também um grupo cultural que promove o enfrentamento ao racismo por meio da beleza, da dança, da valorização das tradições e cultura negra ancestral, completar 50 anos.

Ivana é estudante de Dança na Fundação Cultural do Estado (Funceb), já atuando como professora na área, mas também é multiartista, afroempreendedora, guia de turismo, além de gerenciar um hostel no Santo Antônio Além do Carmo, badalado bairro de Salvador. Completando a lista, é mãe de duas crianças e não está brincando quando diz “mulher é multi-tudo”.
Se diz filha das águas doces de Lençóis, lugar que acolhe pensamentos, sonhos e memórias infantis, incluindo as lembranças de experiências de racismo e o enfrentamento que precisou desenvolver desde criança para ter espaço e voz por onde passava.

A dançarina é filha e neta de garimpeiros, e talvez por não conhecer nada mais precioso, o avô sempre a chamou de joia, preconizando o brilho da menina que passou a se intitular “deusa de nascença”. Desde criança, se identificava como rainha, embora o entorno insistisse em tentar tirar dela o título. Apesar dos episódios de racismo, ao acompanhar a saída do bloco Ilê Aiyê pela televisão em 2017, avistou a deusa daquele ano e pensou: “esse lugar é meu”.
Foto: Paulo Sérgio
Tentou em 2018 e 2019, mas não entrou na lista das finalistas. A dança ainda não fazia parte da sua vida, assim como a verdadeira noção do que é representar milhares de mulheres negras nesse lugar de rainha do Ilê. “Acho que a dança dos blocos afro é sobre a realeza que existe dentro de nós e essa realeza vai despertando com o tempo, com o estudo, com movimentação, com entrega para sua ancestralidade, com o reconhecimento de si e isso é muito importante”, revelou a artista.
A partir das tentativas frustradas, Ivana conta que foi se reconhecendo enquanto potência. “O Ilê ajudou a despertar esse lugar da beleza, de valorizar minha beleza. Sempre abracei minha identidade, sempre tive muitos cabelos, tranças, esse lugar de empoderamento e sinto que preciso levar essa representatividade para o interior da Bahia para que outras mulheres pretas se enxerguem através de mim e saibam que podem realizar qualquer sonho, ser o que quiserem a hora que quiserem.”
Para concluir a realização desse sonho, que ela considera coletivo, ainda falta apoio, já que precisa garantir os recursos financeiros necessários para a finalização da indumentária, acessórios e pagamento dos profissionais que estão colaborando na construção do figurino. Em suas redes sociais, especialmente perfil @pretadivana, no Instagram, ela faz o chamado para quem puder e quiser contribuir.
Como pensamento para o futuro, Ivana deseja, além de cumprir agenda de Deusa do Ébano, voltar para Lençóis e desenvolver projetos em escolas, comunidades quilombolas, assentamentos rurais, para trabalhar a identidade do povo negro em oficinas, contações de histórias, vivências e iniciativas que trabalhem ancestralidade, estética e a valorização da cultura e tradições afrobrasileiras.




Ananda Azevedo | Fotos: Kau Souza, Paulo Sérgio, Ricardo Boa Sorte, Mário Sérgio