Terreiro Palácio de Ogum e Caboclo Sete-Serra, em Lençóis, é o templo de Jarê mais antigo em funcionamento no Brasil e será inscrito no Livro do Tombo Histórico e no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico.
No dia 26 de novembro, o Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) aprovou, durante a sua 111ª reunião, o tombamento do Terreiro Palácio de Ogum e Caboclo Sete-Serra, em Lençóis, na Chapada Diamantina, considerado o templo de Jarê mais antigo ainda em funcionamento no Brasil. Tradicionalmente, um templo de Jarê é fechado após a morte de seu líder. Mas, por pedido de Pedro de Laura – líder e fundador do Terreiro -, a casa foi mantida em atividade pelos seus adeptos após o seu falecimento.
O parecer da relatora Desiree Ramos Tozi destacou que o processo de tombamento foi construído, desde o início, com a participação dos membros do terreiro, respeitando seus modos de organização, suas práticas religiosas e suas visões sobre o espaço sagrado. O processo foi iniciado em 13 de janeiro de 2007, a partir de uma carta encaminhada pela Associação dos Filhos de Santo do Palácio de Ogum e Caboclo Sete -Serra ao Escritório Técnico do Iphan, em Lençóis.
O presidente do Iphan, Leandro Grass, elogiou o rigor técnico e social do parecer e ressaltou a riqueza e valor dos patrimônios de matriz africana, uma das prioridades da atual gestão do Instituto. “Existe a necessidade desses reparos históricos. A gente sabe da complexidade dos desafios que a Bahia enfrenta, por sua grandeza territorial e pluralidade cultural, em um contexto em que o próprio estado vem se reconhecendo e se posicionando dentro da cultura brasileira” declarou.

A justificativa para o tombamento se baseou na relevância cultural e histórica do terreiro enquanto expressão viva da diversidade religiosa afro-brasileira, representando um testemunho da resistência e da criatividade das populações negras na consolidação de seus territórios simbólicos e espirituais.
“Trata-se de um bem cultural de excepcional valor histórico, simbólico e espiritual, cuja materialidade e ambiência expressam a permanência e a vitalidade de uma tradição afro-brasileira singular” argumentou Desiree no dossiê.
“Agora esse tombamento traz de algum modo um outro olhar sobre o Patrimônio Afro indígena na Bahia, um estado que tem um patrimônio considerado indígena, e que ainda não há um bem reconhecido. Esse tombamento traz aspectos importantes para a própria Chapada Diamantina valorizando muito mais do que paisagem e arquitetura, as práticas culturais que estão espraiadas naquele território”, disse o superintendente do Iphan na Bahia, Hermano Guanais.
Com o tombamento, o terreiro passa a ter proteção federal, por meio do Iphan, contra destruição e demolição. Além disso, qualquer restauração ou modificação no bem cultural passa a demandar autorização prévia do Instituto, nos termos do Decreto-Lei nº 25 de 30 de novembro de 1937.
Arquitetura em diálogo com os elementos naturais e espirituais
Fundado em 1949, por Pedro Florêncio Bastos – mais conhecido como Pedro de Laura -, o Terreiro Palácio de Ogum e Caboclo Sete-Serra é frequentemente chamado de “casa de Pedro de Laura” ou de “casa do Capivara” (rio de mesmo nome, localizado no entorno da propriedade), já que as casas de jarê costumam ser designadas por associação ao seu chefe ou a marcos geográficos próximos.
Seu conjunto edificado é composto por uma casa principal, local das cerimônias e práticas rituais, denominada pagodô; por um espaço consagrado aos exus (caramanchão); além de outros ambientes que ocupam, no total, um terreno de aproximadamente 3.782 m².
O local é circundado por vegetação nativa e árvores consideradas sagradas, como a gameleira, além de conter pedras, cursos d’água e objetos enterrados que integram o universo simbólico do Jarê, conformando uma paisagem sagrada em que natureza e espiritualidade se entrelaçam.
Jarê: o candomblé dos caboclos
A prática teve seu início nas cidades de Andaraí e Lençóis (ambas na Chapada Diamantina), por meio de mulheres nagôs (africanas escravizadas vindas da Costa da Mina, onde hoje é Gana, Togo, Benim e Nigéria).
Segundo o parecer, as nagôs e suas primeiras descendentes realizavam suas festas e cerimônias no interior de suas casas, “falando cortado”, ou seja, em iorubá. Ao mesmo tempo, contudo, elas se viram na responsabilidade de prestar culto a entidades que deviam ser reverenciadas na parte de fora de suas casas, ainda que não a céu aberto: os caboclos, espíritos ligados aos indígenas. Para isso, mandavam erguer estruturas temporárias cobertas com folhas de árvores e palha seca, sob as quais conduziam uma parte distinta de suas celebrações, destinada aos caboclos, e cuja liturgia era praticada em português.
Diferentemente das cerimônias realizadas no interior das casas, cuja participação era em princípio reservada somente às próprias nagôs, seus familiares diretos e convidados especiais, o culto aos caboclos feito em português do lado de fora era aberto a qualquer pessoa que dele quisesse participar.
Com o passar do tempo as duas cerimônias distintas se mesclaram e deram origem ao Jarê como é conhecido hoje, no qual todas as entidades passaram a ser reverenciadas no mesmo espaço.
Fonte: Ascom Iphan | Fotos: Mariana Alves e Divulgação Iphan


