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Escola municipal do Vale do Capão inicia ano letivo em meio a crise estrutural

Desafios mobilizam pais e profissionais e denúncias são de precariedade na estrutura, falta de transporte e ausência de funcionários; gestão promete soluções emergenciais e plano de longo prazo.

O início do ano letivo na Escola Municipal de 1º Grau de Caeté-Açu, localizada no Vale do Capão, distrito de Palmeiras, na Chapada Diamantina, foi marcado por uma série de problemas que expõem a fragilidade da educação na localidade. Relatos de mães e profissionais apontam para um cenário de desafios pedagógicos e estruturais que pedem uma reorganização completa em todas as esferas que envolvem a unidade escolar.

Segundo denúncias, o transporte escolar é irregular e sem monitoramento adequado; dentro da escola, a situação é descrita como insustentável, com goteiras, iluminação precária, vazamentos, falta de acessibilidade, ausência de banheiros e salas para professores, além de mobiliário danificado, restos de obras antigas acumulados, e quadra inadequada e sem cobertura. Um profissional que preferiu não se identificar reforçou que as reformas realizadas até agora não passam de “maquiagens”.

Os problemas envolvendo o telhado da escola são um ponto uníssono entre gestão e denunciantes, já que até hoje não conseguiram uma solução para vedar os espaços por onde a água passa. Descrito como um “mistério”, as tentativas de consertar já passaram pela instalação de uma calha e forro, mas nada adiantou e as goteiras deram origem a vazamentos que fazem a água escorrer pela parede das salas de aula e áreas comuns.

Uma das denúncias mais preocupantes envolve a rotatividade dos profissionais que trabalham na escola, desde as funções de gestão, como diretoria e vice-diretoria, até professores, passando por uma equipe de serviços gerais descrita como pouco comprometida. A situação também envolve o atendimento a crianças atípicas, já que atualmente há cerca de 27 estudantes (com e sem laudo), com questões diversas, como neurodivergências, e a escola conta apenas com dois auxiliares de ensino, número insuficiente para a demanda.

No caso da escola, que atende a aproximadamente 350 estudantes nos dois turnos, com seis turmas no segmento de Fundamental 2 no turno matutino e oito turmas, entre Maternal, Infantil e Fundamental 1 no turno vespertino, toda a comunidade escolar parece estar cansada de lutar contra problemas que acompanham o crescimento dos alunos. A maior parte das questões são relatadas não apenas pelos estudantes, mas também pela equipe da escola e são de conhecimento da gestão educacional do município.

Em 2026, nada diferente: o início das aulas foi atrasado por obras inconclusas e já começou com algumas turmas sem professores. A direção também enfrenta instabilidade: a primeira diretora nomeada pediu exoneração após dois dias ocupando a função, e a atual responsável teve que reassumir o cargo do qual também já havia pedido dispensa, mesmo acumulando funções na Secretaria de Educação da cidade. Para apoiar o projeto de recomposição da escola, a vice-diretora retornou ao cargo poucos dias após também ter pedido exoneração.

Gestão responde às críticas

Em conversa com a equipe de reportagem, a diretora afirmou que está há menos de 21 dias no cargo e que já tomou medidas emergenciais, como troca de fechaduras, instalação de novas tampas dos vasos sanitários e a realização de faxinas. Também destacou a chegada de equipamentos como fogão industrial, ventiladores, geladeira e eletrodomésticos como batedeira e micro-ondas, além da colocação de novos quadros e filtros nas salas de aula. O forro do teto também foi estendido para áreas onde ainda não havia sido instalado.

A Secretária de Educação Rosângela Mendes informou que busca soluções definitivas para estes problemas estruturais, e que vinha tentando, durante todo o ano anterior, uma ação mais elucidativa da Secretaria de Infraestrutura do município na unidade. De acordo com a secretária, ela chegou a levar engenheiros e o próprio Prefeito Wilson Rocha para avaliar a escola, no entanto, foi orientada a deixar as ações de recuperação por conta pasta de infraestrutura, sem a contratação de uma empresa externa.

“Fizemos troca de portas, fechaduras, cuidamos de rachaduras nas paredes, retirada de goteiras, pintura, troca de vasos sanitários, colocando vasos com caixa acoplada, pintura, revisão elétrica, colocação de cubas, porém não deu tempo de fazer a pintura das portas e janelas, que está por fazer e a calha que ainda estamos aguardando outra equipe. Não entendo por que ninguém não consegue descobrir o ‘segredo'”, afirmou Rosângela.

Sobre o telhado, ela diz que o ideal para a calha é mudar a estrutura de todo o telhado, mas só terão tempo hábil para fazer isso quando o prédio onde atualmente funciona o Ensino Médio na localidade (Rufino Rocha) for desocupado com a transferência do segmento para a sede da cidade. “Assim poderemos realocar os estudantes para fazer essa mudança do telhado que demanda muito tempo.”

A secretária afirma que a falta de professores se deve à questões específicas, como a de uma professora que se aposentou e dos professores volantes, que substituem a equipe nos momentos de planejamento, mas que já solicitou a contratação de novos professores do processo seletivo para preencher as vagas. No caso das outras faltas, ela explica que quando não tem o atestado, as faltas são descontadas do salário e, a depender da situação, a direção encaminha para atuação junto ao jurídico. O desafio maior, segundo a gestora, é que não há candidatos a serem convocados para o distrito de Caeté-Açu. “Todos que poderiam foram chamados e muitos pediram para sair. Quando chamamos candidatos de outras escolas propondo atuarem no Vale do Capão ninguém quis ir, mesmo com a Prefeitura disponibilizando o transporte”, explicou.

A gestão pretende transformar essa escola em uma creche, após a desocupação do prédio do Ensino Médio para onde será realocada toda a estrutura que hoje atende Educação Infantil e Ensino Fundamental. Essas ações, no entanto, não são imediatas, já que a transferência do Ensino Médio para a sede depende da finalização da construção do novo Colégio de Tempo Integral em Palmeiras, uma ação do governo do Estado. Após essa transferência, as duas unidades precisarão ser ampliadas e reformadas para que as readequações prediais aconteçam.

Agenda com o governador

O governador Jerônimo Rodrigues recebeu, na manhã dessa quarta-feira (4), na Governadoria, em Salvador, o prefeito Wilson Rocha acompanhado de diversos secretários, incluindo a gestora da Educação, bem como a diretora da escola de Caeté-Açu. Por meio do encontro, a cidade de Palmeiras recebeu um ônibus para o transporte escolar que, de acordo com Rosângela, será destinado aos estudantes do Vale do Capão.

Foto: Feijão Almeida

Na ocasião, a secretária de educação do Estado, Rowenna Brito esteve presente e pôde ouvir as demandas, especialmente, da escola de Caeté-Açu. De acordo com Rosângela, dessa reunião, outro encontro específico com a assessoria da educação do Estado foi realizado para planejamento da resolução dos problemas que a educação de Palmeiras vem enfrentando.

A ideia é que toda a comunidade escolar esteja voltada para questões que atingem a escola “há décadas”, como afirmou a secretária municipal, que foi diretora da unidade por, aproximadamente, 19 anos e se diz otimista com a atuação das atuais diretora e vice-diretora da escola. “Sei muito bem de toda a problemática da escola e do que precisa ser feito, em momento algum, a gestão da secretaria tem se omitido ou negligenciado a responsabilidade que nós temos”, concluiu.

Para além das perspectivas, a população segue cobrando resoluções definitivas para garantir condições dignas de estudo e aprendizagem para os estudantes da região, fazendo valer o seu direito à educação.

Ananda Azevedo | Fotos: Enviados por moradores/Feijão Almeida/GOVBA

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