Evento celebrou Prouni e Lei de Cotas com Lula e Camilo Santana; região da Chapada destaca participação de lideranças quilombolas, juventude e representante indígena.
Movimentos populares, sindicais, negros e estudantis se reuniram na última terça-feira (31) no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, para defender as cotas raciais nas universidades. O ato contou com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do ministro da Educação, Camilo Santana, marcando os 21 anos do Prouni, 14 da Lei de Cotas e uma década das primeiras turmas cotistas.
A Chapada Diamantina enviou uma delegação especial com cerca de 30 pessoas, incluindo lideranças de comunidades quilombolas, representantes da juventude e um representante indígena, reforçando a luta por ações afirmativas. Segundo participantes, o objetivo principal foi pressionar o governo por conta de vários retrocessos que vem ocorrendo em outros estados. No ato, foram anunciadas mais seis universidades federais, embora nenhuma na Bahia, informou um dos representantes da Chapada.
Presente ao encontro e parte da delegação do território, Naldo Rocha ressaltou a importância do evento. “Foi um ato de suma importância em defesa dos direitos já conquistados”. Segundo Naldo, que é quilombola, militante e ativista, o evento foi um sucesso e o envio da delegação mostra a necessidade de os movimentos populares se organizarem para representar seus territórios também em pautas nacionais, ainda que diante de dificuldades.

Naldo faz parte da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Agricultura e Mudança do Clima de Palmeiras e, na sua opinião, não vê muita expressividade nas políticas de ação afirmativa no território. O servidor público acredita que as políticas nacionais poderiam ser melhor divulgadas. “Não vou dizer que é inexistente, eu estou trabalhando porque concorri na cota quilombola e pretos (30% reservada), mas os processos seletivos, na maioria, contemplam mais quem se posiciona na política partidária. Na minha secretaria, foi exceção, foi um processo sem influência política”, afirmou.
Educação Superior
Dados do Censo da Educação Superior (Inep) mostram avanço, como as matrículas de cotistas federais, que subiram 266,4% em dez anos (2012-2023), e as pessoas que se formaram por políticas de cota que saltaram de 1.780 para 26.151 (+1.369,2%) no mesmo período.
Em 2026, de acordo com o Brasil de Fato, o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) teve recorde de instituições participantes (136) e 271 mil aprovados. O Prouni também registrou recorde, com 594,5 mil bolsas ofertadas no primeiro semestre, e mais de 65% dos bolsistas autodeclarados pretos, pardos ou indígenas.
Dados do MEC anunciados no evento, dão conta de que quase 95 mil estudantes cotistas ingressaram na educação superior de 2024 a 2026, além do número de cotistas aprovados por ampla concorrência no Sisu ter crescido 124% em relação a 2024. Já o número de bolsistas do Prouni autodeclarados pretos, pardos ou indígenas aumentou 65% e 307,5 mil cotistas se matricularam em instituições públicas entre 2023 e 2026 (39% dos ingressantes desde o início da Lei de Cotas).
Além disso, houve aumento de 177% de cotistas matriculados pelo Sisu entre 2023 e 2025 (de 45 mil para 105 mil). E em 14 anos, quase 2 milhões de cotistas se matricularam em universidades públicas e privadas (790,1 mil cotistas pelo Sisu, 1,1 milhão pelo Prouni e 29,6 mil pelo Fies).
No entanto, apesar dos ganhos, a desigualdade persiste. Um exemplo é mostrado pelo estudo do Centro de Estudos e Dados sore Desigualdades Raciais (Cedra), de 2025, indicando que, entre as mulheres, só 14,9% das negras acima de 25 anos têm diploma superior, contra 30,3% das brancas (Pnad/IBGE).
De acordo com o Naldo, que é filho de mãe solo quilombola, ainda assim observa-se ganhos inéditos nas conquista dos movimentos e organizações que militam em prol da equiparação educacional. “Acredito que a educação, mesmo diante dos desafios, ainda é o caminho para a emancipação de um povo”, concluiu.
Ananda Azevedo | Foto: Acervo pessoal Naldo Rocha


