Guardiões da Serra da Chapadinha tiveram parte da casa, pertences e equipamentos de comunicação e energia incendiados e ficaram aproximadamente duas horas sofrendo ameaças sob a mira de armas.
Um santuário natural, abrigo de biodiversidade e quase intocado foi cenário de momentos de terror na última quinta-feira, 30. O silêncio interrompido por tiros de, pelo menos, três tipos de armas, anunciava a violência que se seguiria pelas próximas duas horas. O local é a Serra da Chapadinha, no município de Itaetê, na Chapada Diamantina, e as vítimas, o casal Alcione Correa e Marcos Fantini, seus guardiões.
Um grupo de homens fortemente armados invadiu o espaço Toca do Lobo, onde o casal mora e trabalha, recebendo pequenos grupos de hóspedes e condutores para conhecer as belezas naturais dos arredores. A região é conhecida por suas cachoeiras imponentes e por ser abrigo de nascentes e rios que abastecem não apenas a região, mas bacias hidrográficas que atendem mais de 80 municípios.
No entanto, esse espaço natural está no meio de um conflito que tem Marcos e Alcione como centro: o casal iniciou uma luta árdua que já conta com milhares de adeptos para garantir que a Serra da Chapadinha seja reconhecida e protegida como Refúgio de Vida Silvestre (REVIS), uma categoria de proteção ambiental integral que não permite que a exploração econômica por meio de grandes empreendimentos seja instalada na região.
O problema é que, segundo informações, há grandes interesses financeiros na área, que vem sofrendo especulação imobiliária para empreendimentos de alto padrão e também da mineração, já que empresas de extração de minérios desejam explorar o local. Especula-se também que muitas das terras em questão sejam oriundas de grilagem, uma apropriação ilegal de terras públicas que, geralmente, vem acompanhada de destruição ambiental e violência.
Diante do exposto, observa-se que a região já vem sendo epicentro de alguns conflitos, especialmente fundiários. Em nota contra o atentado, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), chegou a afirmar que o local “sempre aparece nas estatísticas de violência no campo”.
Diversos ambientalistas e estudiosos afirmam que a instalação de megaempreendimentos na região ameaça destruir, de forma irreversível, a biodiversidade local, os recursos hídricos e a vida de diversas comunidades que se sustentam da agricultura familiar, do extrativismo consciente e das atividades relacionadas à terra e subsistência.
Portanto, é impossível discordar que a Serra da Chapadinha é um espaço destinado à proteção. Mas a violência sofrida pelos seus guardiões provam que nem todos pensam assim. Sob acusações de estarem “impedindo o progresso” e “atrasando o desenvolvimento” da região, os agressores invadiram a Toca do Lobo que, desde 2024, é reconhecida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) como Posto Avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, e mantiveram Alcione e Marcos sob a mira de armas apontadas para suas cabeças, quebraram equipamentos, destruíram sistemas de energia solar e de internet, reviraram e queimaram parte da residência e prometeram voltar ainda mais violentos.


Ao relembrar o episódio em entrevista para o portal ((o)) eco, o casal relembra os momentos de maior tensão. “Arma na cabeça, arma na boca, ameaçaram fazer marca de ferro na gente… Não sei como não mataram a gente”, desabafou Alcione, que é engenheira química e ambientalista. Ela acrescentou que um dos homens chegou a afirmar que a “ordem” foi para não deixá-los vivos.


O episódio deixou a cidade e toda a Chapada Diamantina perplexas diante da vulnerabilidade de ativistas ambientais que buscam tão somente a proteção da natureza e a manutenção das vidas que dependem da biodiversidade e, especialmente, da água que faz do local um dos principais pontos de recarga hídrica da Bahia.
Serra da Chapadinha: por que preservar?
A Serra da Chapadinha consolida-se como um dos territórios naturais de maior relevância biológica e estratégica no estado da Bahia. Localizada entre o Parque Nacional da Chapada Diamantina e os parques municipais de Ibicoara (Espalhado) e Andaraí (Rota das Cachoeiras), a região funciona como um dos últimos “Corredores Verdes” preservados, conectando importantes ecossistemas e garantindo a sobrevivência de espécies raras.

A região é descrita por pesquisadores como uma “grande caixa d’água”, sendo uma das áreas mais importantes de recarga hídrica da Bahia. A Serra abriga os chamados brejos de altitude, essenciais para os aquíferos do Alto do Paraguaçu.
O território protege as nascentes do Rio Una, principal afluente do Rio Paraguaçu. Este sistema é responsável pelo abastecimento de aproximadamente 80 municípios baianos, incluindo Salvador e sua Região Metropolitana, alcançando cerca de 2 milhões de pessoas. Rios como o Jiboia e o Espalhado também dependem diretamente das águas provenientes da Chapadinha.
Biodiversidade e Espécies em Risco


Estudos técnicos enviados ao Instituto Chico Mendes de Conservação à Biodiversidade (ICMBio) no final de 2024 comprovaram na época que a Serra possuía 98% de sua vegetação nativa preservada, com predominância de Mata Atlântica e Cerrado. A riqueza da fauna e flora é um dos pilares para o pedido de proteção integral. Confira alguns exemplos.
- Primatas: a área é crucial para a preservação do macaco-prego-do-peito-amarelo e do guigó-da-caatinga, este último classificado como “Criticamente Em Perigo”.
- Mamíferos e Aves: armadilhas fotográficas registraram 23 espécies de mamíferos (8 ameaçadas, como o gato-maracajá-mirim) e 89 espécies de aves, incluindo o pintassilgo-do-nordeste e a jacucaca.
- Flora: um inventário preliminar identificou 184 espécies de plantas, algumas restritas aos campos rupestres e já classificadas como em perigo de extinção.
A Proposta de Proteção: Refúgio de Vida Silvestre
O Movimento Salve a Serra da Chapadinha e órgãos ambientais propõem a criação de uma Unidade de Conservação (UC) na categoria de Refúgio de Vida Silvestre. Este modelo permitiria a proteção integral do território sem a necessidade de desapropriação das poucas propriedades privadas existentes (menos de 10% da área).

A nova UC abrangeria cerca de 19 mil hectares, distribuídos majoritariamente em Itaetê, com porções em Mucugê e Ibicoara. Se aprovada, a reserva formará um corredor contínuo de 180 mil hectares de proteção ambiental, unindo parques municipais e federais já existentes, garantindo que a Serra da Chapadinha tenha uma legislação própria que impeça sua degradação.
Investigações
A Secretaria de Segurança Pública do Estado da Bahia já foi notificada sobre o caso e a Polícia Civil irá conduzir as investigações. Em contato com a Delegada de Itaetê, Dra. Elizanni Pedrosa, a equipe de reportagem do Chapada News foi informada que o processo corre em sigilo e que informações só poderiam ser passadas pela Assessoria de Comunicação da Polícia Civil da Bahia que, infelizmente, não respondeu ao nosso contato até o fechamento desta reportagem.
Além da esfera policial, o Ministério Público Federal e o Ministério Público do Estado da Bahia também foram acionados para intervir no caso.
Nessa terça-feira, 5, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, por meio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), emitiu um ofício ao Secretário de Segurança Pública do Estado da Bahia, Marcelo Werner, solicitando prioridade na investigação do caso e o reforço das ações de segurança pública na região da Serra da Chapadinha.
Repercussão
Diversos movimentos socioambientais, órgãos federais e entidades publicaram notas de repúdio nas quais manifestam solidariedade ao casal e cobram sérias investigações pelas autoridades.
A Reserva da Biosfera da Mata Atlântica publicou informações sobre o atentado e cobrou proteção. “A Reserva da Biosfera da Mata Atlântica manifesta seu repúdio a qualquer forma de violência contra defensores do meio ambiente. O atentado na Serra da Chapadinha na Chapada Diamantina, Bahia, reforça a urgência de proteger não apenas nossos biomas, mas também aqueles que dedicam suas vidas à sua conservação. Defender a natureza não pode ser um ato de risco. Seguimos firmes na luta pela proteção da biodiversidade e pela segurança dos que estão na linha de frente dessa missão”.
A Comissão Pastoral da Terra se uniu em apoio ao casal: “A Comissão Pastoral da Terra manifesta solidariedade à família vítima de um ataque violento na madrugada de 30 de abril, na Serra de Chapadinha, em Itaetê (BA). Homens armados invadiram o local, incendiaram a residência e ameaçaram diretamente as vítimas, colocando suas vidas em risco. Além da violência, o ataque destruiu equipamentos essenciais, como sistema de energia solar e meios de comunicação. A região, fundamental para a recarga hídrica da Bahia, enfrenta conflitos marcados por grilagem de terras e pressão de mineradoras. A CPT cobra investigação rigorosa e medidas urgentes para proteger as comunidades e lideranças que defendem seus territórios.”
O Parque Nacional da Chapada Diamantina, gerido pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) fez uma publicação em que ressalta a relevância ambiental da Serra da Chapadinha e a importância da sua preservação.”Toda a nossa solidariedade às vítimas deste atentado e a todas as pessoas que dedicam a vida a cuidar e defender o meio ambiente. Vocês não estão sós!”, dizia a legenda da publicação feita nas redes sociais do PNCD. A Universidade do Estado da Bahia e a Universidade Estadual de Feira de Santana também emitiram notas.
Na esfera política, o Deputado Hilton Coelho recebeu Marcos e Alcione em seu gabinete, e publicou um vídeo com o casal em que reforçou o papel dos dois como lideranças da luta em defesa da Serra da Chapadinha e fez uma cobrança direta ao governador Jerônimo Rodrigues (PT-BA) pela criação da unidade de conservação. “O que está em jogo é a disputa em relação à preservação do meio ambiente e da própria água que sai das nossas torneiras”, exclamou.
A Secretaria do Meio Ambiente do Estado, no entanto, ainda não emitiu um posicionamento oficial sobre o ocorrido.
Foto destaque: Montagem com imagens de Alcione Correa e Duda Menegassi / O Eco


