Alcione Correa e Marcos Fantini, da Toca do Lobo e SOS Serra da Chapadinha, cumprem agenda com órgãos federais após atentado em Itaetê; Governo da Bahia abre consulta pública para criação do Refúgio de Vida Silvestre Serra da Chapadinha.
Pouco mais de um mês após o atentado armado contra Alcione Correa e Marcos Fantini, lideranças do movimento em prol da Serra da Chapadinha, o espaço Toca do Lobo, residência e pequena hospedaria do casal, foi alvo de um segundo ataque. O imóvel foi encontrado queimado e com paredes destruídas, cenário registrado pela equipe do Parque Nacional da Chapada Diamantina no dia 6 de junho.
No momento do crime, o casal não estava no local, pois desde o primeiro atentado, ocorrido no início de maio, foi obrigado a sair da região por questões de segurança. Profissionais do Instituto Chico Mendes de Conservação à Biodiversidade (ICMBio) foram até a pousada após denúncias de incêndio, que também foram recebidas pela Polícia Militar e a Companhia de Polícia de Proteção Ambiental (CIPPA). Essas últimas não conseguiram acessar a área devido às condições da estrada. Com carro apropriado para o terreno, o ICMBio conseguiu chegar ao local onde testemunharam a destruição. O caso reforça a gravidade da situação de risco enfrentada pelos defensores da Serra da Chapadinha.
Em depoimento emocionado, Alcione disse acreditar que podem ter sido os mesmos criminosos do primeiro atentado. Alcione lamenta de forma mais profunda, no entanto, a violação de símbolos importantes para a história do local. “Eles fizeram questão de destruir os símbolos da Reserva da Biosfera da UNESCO, de destruir aquele mosaico lindo [com a logo da pousada] que todo mundo queria tirar foto, que ficava lá na cozinha da Toca. Isso me pegou. O simbolismo dessa violência, desse ódio, dessa ganância”, contou em vídeo divulgado.
Em entrevista ao Chapada News, Alcione afirmou que o casal não tem condições de promover a reconstrução do espaço, mas que neste momento estão focados no coletivo, na proteção do território e não nas suas perdas pessoais. “Os criminosos, em mais uma ação de ódio, promoveram a destruição da Toca do Lobo, de nossa casa, como se destruir o material conseguisse apagar o legado. Não temos dinheiro para essa reconstrução, mas creio que as ruínas da Toca virarão, a muitas mãos, um espaço em que o legado permanecerá, da conservação, pesquisa e educação ambiental”, afirmou. “Proteger a Serra da Chapadinha é muito mais importante nesse momento, e é a prioridade”, finalizou a ambientalista.
Agendas em Brasília
O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) recebeu, na quinta-feira (11), em Brasília, os ambientalistas. A agenda fez parte do acompanhamento realizado pelo Programa de Proteção às Defensoras e Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas (PPDDH).
A reunião foi conduzida pela secretária nacional Tassiana Carvalho, com a participação de equipes técnicas das áreas de meio ambiente, empresas e educação em direitos humanos e cultura. O MDHC disse acompanhar o governo da Bahia para garantir a segurança dos defensores e enfrentar as causas estruturais do conflito socioambiental na região, que envolvem a defesa da água e dos modos de vida das comunidades locais.
A mobilização em defesa da Serra da Chapadinha ganhou repercussão nacional durante uma cerimônia oficial um dia antes, na quarta-feira, 10, com a presença do presidente Lula e do ministro do Meio Ambiente João Capobianco. Em discurso, o ministro destacou a indignação do Brasil diante da violência contra os ambientalistas e confirmou a inclusão de ambos no programa federal de proteção. O ministro também reforçou a pressão sobre o governo da Bahia para a criação da unidade de conservação no local, considerado berço das águas do estado.
“O Brasil assistiu com indignação ao atentado contra os ambientalistas Alcione Correa e Marcos Fantini na Serra da Chapadinha, na Bahia. Ao mesmo tempo, informo com prazer que o governo da Bahia já iniciou com apoio do nosso Ministério do Meio Ambiente, os trabalhos para transformar a área defendida pelos nossos líderes ambientais ameaçados em uma unidade de conservação estadual que vai garantir a proteção e perpetuidade daquela área”, destacou o ministro.
Na ocasião, uma celebração ao Dia Mundial do Meio Ambiente, em um gesto de apoio, o presidente Lula posou para fotos segurando a camisa da campanha “Salve a Serra da Chapadinha”, evidenciando a relevância da causa para a preservação da biodiversidade e dos direitos humanos na Bahia e no Brasil.

O movimento que vem se fortalecendo em prol da Serra da Chapadinha, tendo Alcione e Marcos como líderes, busca garantir que a Serra da Chapadinha seja reconhecida e protegida como Refúgio de Vida Silvestre (REVIS), uma categoria de proteção ambiental integral que não permite que a exploração econômica por meio de grandes empreendimentos seja instalada na região. A área é de interesse de empresas ligadas à mineração e também ligadas ao setor imobiliário de alto padrão, cujos empreendimentos podem causar danos severos ao meio ambiente de um dos territórios naturais de maior relevância biológica e estratégica no estado da Bahia.
O Governo da Bahia, como resposta institucional, abriu, desde o dia 1º de junho, uma consulta pública para criação do REVIS. A unidade de conservação pretendida pelos ambientalistas e endossada por órgãos como o Ministério Público Federal, abrangerá cerca de 18,3 mil hectares entre os municípios de Itaetê, Ibicoara e Mucugê. A consulta estará aberta até 30/6, de forma online inicialmente.
Além do MDHC, os ambientalistas cumpriram agendas no Palácio Itamaraty, no Ministério do Meio Ambiente e no Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH).
No evento do Itamaraty participaram de uma homenagem considerada histórica: a cerimônia de premiação do Concurso Dom Phillips e Bruno Pereira de Jornalismo e Comunicação, ocorrida na quinta-feira (11). O indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips foram mortos em uma emboscada no dia 5 de junho de 2022, ao realizarem uma expedição no Vale do Javari, palco de conflitos em decorrência do tráfico de drogas e extrativismo ilegal.
No Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH), foram recebidos em reunião voltada à escuta institucional e ao acompanhamento das demandas relacionadas à proteção da Serra da Chapadinha e à situação de risco enfrentada pelos defensores ambientais.
Questionada sobre a visibilidade que a causa vem ganhando em esfera nacional, Alcione afirma que o mais importante é a despersonalização da causa. “A proteção da Serra da Chapadinha nunca foi sobre Alcione e Marcos, sempre foi pela água de milhões, e a causa tomar projeções federais dá a importância para a Serra da Chapadinha.”
Ananda Azevedo | Foto destaque: ICMBio


