CN

Dia municipal do Jarê em Lençóis: tradição viva da Chapada Diamantina

Cidade lidera comemorações da religião exclusiva da Chapada que mantém viva uma tradição cultural reconhecida no país.

Nesta quinta-feira, 16, Lençóis celebra o Dia Municipal do Jarê, uma data que homenageia a religião de matriz africana exclusiva da Chapada Diamantina. Instituída pela prefeitura local, a comemoração neste ano ganhou as ruas, começou nessa quarta, 15, e vai até o sábado, 18, com programação preenchida com rituais, apresentações culturais e debates sobre preservação.

Mas o que torna o Jarê tão especial?

O que é o Jarê?

O Jarê é uma manifestação religiosa que só existe na Chapada Diamantina e que nasce do sincretismo entre tradições africanas e elementos indígenas, católicos, umbandistas e espíritas. Conhecido como “candomblé de caboclo”, incorpora entidades nativas da região, como caboclos e mestres espirituais ligados à natureza exuberante da serra.

Diferente do candomblé baiano tradicional, o Jarê reflete a identidade mestiça da Chapada, com rituais, danças, cantos e, como não poderia deixar de ser, oferendas aos orixás. Tudo adaptados ao contexto local.

No final de 2025, o Jarê obteve um merecido reconhecimento: o Terreiro Palácio de Ogum e Caboclo Sete Serras, em Lençóis, foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como Patrimônio Cultural do Brasil, o que contribuiu para reforçar sua relevância nacional.

Chapada Diamantina

Na Chapada Diamantina, o Jarê vai além da fé, sendo um verdadeiro pilar cultural e identitário. Surgido no século XIX com escravizadas africanas alforriadas, ele preserva memórias de resistência e adaptação ao garimpo e à mata atlântica.

Os terreiros funcionam como centros comunitários, promovendo cura espiritual, contribuindo com festas populares – como a de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos – e transmissão de saberes ancestrais.

Em uma região turística, o Jarê atrai visitantes curiosos, no entanto, isso não blinda a manifestação religiosa e cultural dos desafios como intolerância religiosa e conflitos ambientais, contra os quais se fortalece preservando laços comunitários e promovendo um cuidado singular com a natureza com a qual se relaciona por completo.

Outros municípios

A cidade de Lençóis é pioneira ao instituir o Dia Municipal do Jarê nesta data de 16 de abril, promovendo eventos como giras nos terreiros, exposições e rodas de conversa periodicamente. A programação de 2026 inclui atividades nos terreiros locais, nas ruas da cidade e no Mercado Cultural. Toda a comunidade é convidada a celebrar a diversidade.

Em outros municípios da Chapada, como Mucugê, Ibicoara e Andaraí, não há datas municipais específicas equivalentes, mas o Jarê é vivo em festas regionais e terreiros. Lençóis poderia ser considerada como um “epicentro”, no entanto em cidades vizinhas a prática religiosa também é levada adiante e ganha forma em outros eventos como o Dia da Chapada Diamantina, comemorado em 11 de abril.

Mãe Carmosa,líder religiosa do Jarê Terreiro de Umbanda de São Jorge e a artista Rafaela Silva em cena da Websérie Anfitriãs. Foto: Zulmi Nascimento

Terreiro demolido e reconstrução

Um capítulo doloroso na história recente é a demolição do Terreiro Peji da Pedra Branca de Oxóssi, que aconteceu em 2024, pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) no Parque Nacional da Chapada Diamantina.

O órgão ambiental justificou a ação como fiscalização contra ocupação irregular, mas o acontecimento gerou revolta, com a população, especialmente lideranças quilombolas e religiosas apontando nítidos traços de racismo ambiental e violação de direitos ancestrais, além do despreparo dos agentes do órgão em reconhecer a natureza histórica e tradicional da construção. O mestre Gilberto Tito, conhecido como Pai Damaré e guardião do terreiro, liderou a cobrança por reparação.

Em dezembro de 2024, ICMBio e o terreiro assinaram um acordo de reparação, autorizando a reconstrução do espaço sagrado, o que durou cerca de três meses. O termo incluiu indenizações e compromissos de proteção, simbolizando vitória do diálogo intercultural. Hoje, o Peji da Pedra Branca segue funcionando na Comunidade do Curupati, onde sempre esteve alocado, reforçando a resiliência do Jarê perante pressões socioambientais.

Herança e preservação

O Dia Municipal do Jarê em Lençóis é uma festa com ares de grito por reconhecimento. Em meio ao turismo e necessidade de conservação, essa tradição exclusiva da Chapada Diamantina clama por respeito. E o Jarê seguirá unindo fé, história e natureza.

Enquanto Lençóis lidera as celebrações, todo o território beneficia dessa herança viva.

As comemorações incluem diversas as atividades que começaram nessa quarta e vão até 18 de abril com bênçãos nos bairros, caminhada pela paz, o ritual tradicional da barquinha com entrega de presentes no Rio Lençóis, samba de roda e roda de conversa. Confira.

Ananda Azevedo com informações de Guia Chapada Diamantina e Prefeitura de Lençóis | Fotos: Ananda Azevedo

Compartilhe

POSTS RELACIONADOS

plugins premium WordPress Pular para o conteúdo