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Estudo revela impacto do clima na preservação das aves na Chapada Diamantina

Pesquisa publicada na prestigiada revista Biodiversity and Conservation alerta que aquecimento global pode encurralar espécies endêmicas e ameaçadas no topo das montanhas da região.

Um novo estudo científico realizado no Parque Nacional da Chapada Diamantina (BA) revelou que o clima, especialmente a temperatura, desempenha um papel central na distribuição e na organização das comunidades de aves ao longo das montanhas da região. Publicado pela renomada revista internacional Biodiversity and Conservation, o trabalho aponta que as variações de altitude e temperatura provocam mudanças profundas não apenas na quantidade de espécies de aves, mas também na forma como elas desempenham suas funções ecológicas nos ecossistemas locais. As informações são do portal Desafio Ambiental.

A pesquisa analisou mais de 170 espécies de aves ao longo de um gradiente altitudinal que variou de 400 a 1.300 metros de altitude. Os resultados demonstraram que as áreas mais baixas e quentes concentram uma maior riqueza de espécies e uma diversidade funcional mais ampla. Por outro lado, as regiões de maior altitude, embora abriguem menos espécies, apresentam uma relevância crítica para a conservação ambiental devido à presença de espécies únicas e adaptadas a climas mais amenos.

O conceito de diversidade funcional foi um dos pilares da investigação. Diferente da análise taxonômica tradicional, que apenas contabiliza o número de espécies, a diversidade funcional avalia as características ecológicas dos animais — como dieta, tamanho do corpo, comportamento de forrageamento e uso do habitat. Essas características determinam os papéis práticos que as aves desempenham na natureza, como a polinização de plantas, a dispersão de sementes e o controle biológico de populações de insetos. Alterações nessa estrutura podem comprometer o equilíbrio de processos ecológicos vitais para a sobrevivência de toda a floresta.

Monitoramento de longo prazo e o risco do aquecimento global

O estudo integra as atividades do Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração (PELD), uma iniciativa financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em parceria com fundações estaduais de amparo à pesquisa, como a Fapesb. A pesquisa faz parte do projeto “Biodiversidade nas montanhas: desvendando padrões e processos ecológicos e evolutivos da biota da Chapada Diamantina – fase dois”, que monitora as respostas da fauna e da flora locais às transformações ambientais ao longo do tempo.

A bióloga Maisa Teixeira Alves, autora principal do estudo e doutoranda em Biodiversidade e Evolução pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), ressalta que compreender esses padrões é urgente diante das rápidas mudanças climáticas globais. “Nesse contexto, a conservação de ecossistemas montanhosos deixa de ser apenas uma questão ecológica e passa a representar uma estratégia central para mitigar os efeitos das mudanças climáticas sobre a biodiversidade”, explicou a pesquisadora.

O coordenador do projeto, Dr. Mirco Solé, professor da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), alerta que o fenômeno observado com as aves provavelmente se repete em outros grupos de animais vertebrados. Ele aponta que o deslocamento em direção ao topo das montanhas é a principal rota de fuga das espécies para escapar do aumento das temperaturas nas áreas mais baixas.

No entanto, ao contrário de cordilheiras como os Andes, as formações montanhosas da Chapada Diamantina possuem limites de altitude modestos. “Em algum momento, as espécies atingem o topo e, se as temperaturas continuarem a subir, passam a não ter mais para onde ir — o que pode levar ao seu desaparecimento local”, alertou o professor.

Ameaça a espécies endêmicas

Esse cenário de aquecimento e isolamento geográfico é considerado alarmante para a Chapada Diamantina, uma região conhecida por abrigar um alto índice de endemismo, espécies que não existem em nenhum outro lugar do planeta, e animais já ameaçados de extinção.

Entre as espécies que correm risco severo de ter seus habitats reduzidos ou inviabilizados pelo avanço das mudanças climáticas, a pesquisadora destaca:

  • Papa-formiga-do-sincorá (Formicivora grantsaui)
  • Beija-flor-de-gravata-vermelha (Augastes lumachella)
  • Chunero ou Tapaculo-da-chapada-diamantina (Scytalopus diamantinensis)

A publicação do artigo na Biodiversity and Conservation, periódico internacional do grupo Springer Nature focado na proteção e uso sustentável da diversidade biológica, reforça o impacto global da pesquisa desenvolvida na Bahia e a necessidade de políticas públicas voltadas à preservação dos refúgios climáticos de altitude.

Fonte: Desafio Ambiental | Foto ilustrativa: Marcelo Issa/Photrilha

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